O Laço Duplo, de Chris Bohjalian
Chris Bohjalian se apaixonou pelo clássico O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, e dele escreveu O Laço Duplo. Um livro onde tudo parece ser real, mas há muito mais coisas por trás daquilo que é narrado. Laurel Eastbrook tinha 19 anos, estava no segundo ano da faculdade em Burlington e adorava andar de bicicleta no morro Underhill. Em um de seus passeios, foi atacada por dois homens que tentaram estuprá-la e matá-la. Anos depois, já formada e com seus agressores na cadeia, Laurel, assistente social em um abrigo para sem-tetos, volta a se deparar com a fatídica tarde de domingo em Underhill.
Um ex-cliente seu, um idoso esquizofrênico sem-teto chamado Bobbie Crocker, morreu e deixou para trás um punhado de fotos e negativos que dizia serem seus. Laurel então é incumbida de organizar o material para fazer uma exposição para angariar fundos para o abrigo. Mas entre as imagens de famosos dos anos 50 e 60, ela encontra registros do antigo clube onde passava seus dias de infância e de uma moça andando de bicicleta no meio de uma floresta. Uma moça muito parecida com ela. A organização das fotos passa então a virar uma obsessão para desvendar o mistério por trás de Bobbie, sua família e dela mesma.
Bohjalian insere o leitor dentro da mente de Laurel de forma simples. Acreditamos seriamente no que ela pensa e vê, mas o livro engana o leitor. Através dele sentimos como uma pessoa pode se fechar para esquecer de fatos dolorosos. Através dos relacionamentos dela com seus amigos e colegas, percebemos que pelo menos parte do que é relatado ao leitor sobre Laurel é prova de sua insanidade. E aí está a grande virada da história: nada do que é relatado na narração é verdade. Quer dizer, o livro é uma ficção, claro, mas uma mentira. Uma invenção da cabeça de Laurel. E Bohjalian coloca isso de forma tão natural que nem se percebe em que momento há essa troca entre Laurel sã e Laurel louca.
E é aí que entra O Grande Gatsby, livro base de O Laço Duplo. Tudo o que Laurel vê e pensa ser verdade é o enredo do livro de Fitzgerald. Um jeito realmente muito bom de se homenagear uma obra, fazendo-a parte da sua. Mas não é apenas em O Grande Gatsby que Bohjalian encontrou os elementos da trama. As fotos de Bobbie, representadas em algumas páginas do livro, são reais, mas creditadas à Bob Campbell, um sem-teto de Burlington. Ou seja, parte da história até é real.
O que caracteriza O Laço Duplo com uma leitura maravilhosa foi a técnica de Bohjalian de dar provas que afirmavam que tudo o que Laurel dizia era real, ao mesmo tempo em que percebíamos que ela não estava raciocinando bem sobre o assunto, para no final ser revelado o que realmente estava acontecendo. Isso sem deixar a sensação de que o autor esta fazendo os leitores de bobos. Ele mostra o quanto as pessoas podem mentir para si mesmas, e quais as conseqüências que essas mentiras podem trazer. Sem dúvida, O Laço Duplo é um livro que merece atenção, e que com certeza vai mais surpreender do que decepcionar.
2 comments Novembro 5, 2009
Leitura da Semana: Areia nos Dentes
O livro da vez é Areia nos Dentes, do gaúcho Antônio Xerxenesky, publicado pela Não Editora. Ouvi falar muito sobre ele, e logo bateu aquele interesse de ver se o livro é bom mesmo. Por que? Porque é sobre o Velho Oeste narrado por um mexicano e com zumbis.
Sinopse rápida: Juan está escrevendo um livro sobre os Ramírez, seus antepassados que moraram nos EUA nos gloriosos tempos do Velho Oeste. Eles tinham uma rixa com os Marlowes, e achavam que a família americana estava tramando algo para dizimar os mexicanos. E os zumbis estão no meio.
Estou quase acabando o livro, na verdade, e só agora é que os tais zumbis apareceram. Mas isso não é problema nenhum no livro. A história é tão bem escrita que não me importei por eles demorarem a dar o ar de sua graça. A narração foi muito bem estruturada, feita de diversos estilos, que dá a Areia nos Dentes todo o ritmo que ele precisa para não cansar o leitor. Achei simplesmente genial. Sem falar que dá pra sentir toda a agonia de Juan Ramirez (o protagonista) quanto ao clima do Velho Oeste.
A resenha de Areia nos Dentes vai estar no Ambrosia entre o dia 31/10 e 13/11 (especial de Halloween), e depois aqui no r.izze.nhas.
3 comments Outubro 30, 2009
Contra o Caminho das Índias: o que a literatura revela
Certo, a tal novela das oito acabou, mas ainda é tempo de falar sobre ela. Isso porque a última trama de Glória Perez deixou uma nova marca nos brasileiros, que durante meses acompanharam Maya, Raj e Bahuan na mais nova ponte aérea novelística: Brasil-Índia. Assim, o “inshalá” de O Clone foi substituído pelo “are baba” de Caminho das Índias, e um pouco daquele grande país foi apresentado aos brasileiros que só ouviram falar da Índia na escola (e nem se lembram).

Porém, logo no início da novela, algumas pessoas já familiarizadas com a cultura indiana, além dos próprios, declararam que a novela de Glória Perez estava há pelo menos 50 anos atrasada. Principalmente por conta de alguns costumes e crenças apresentados no folhetim que, segundo eles, já haviam sido superados. E aí fica a dúvida: Caminho das Índias foi mais uma novelinha para entreter ou realmente ensinou alguma coisa nova para o telespectador?
Como ex-noveleira, que cresceu na frente da TV vendo clássicos como Torre de Babel e A Próxima Vítima, digo que não. Porque eu não aprendi nada relevante das novelas, e duvidava de praticamente tudo que nela passava. Então se alguém se interessou pela Índia por conta da Globo, mas ficou só nisso, indico um livro que não só vai mostrar mais do país mas também provar que realmente Glória Perez se baseou em costumes ultrapassados para montar Caminho das Índias.
Um livro que trata da Índia e que fez sucesso antes mesmo da novela ir ao ar. A Distância Entre Nós, da jornalista indiana radicada nos EUA Thrity Umbrigar. O confronto entre pobres e ricos demonstrado na novela global faz parte da história contata por Umbrigar também. Se bem essa relação é mais “liberal”. A Distância Entre Nós é sobre a amizade entre Sera a Bihma, patroa e empregada, respectivamente. Separadas pela classe social, as duas nutrem há anos uma amizade que vai contra o usual modo de se tratar os empregados. Porém, a diferença entre as duas ainda pesa na sua relação, mostrando que os costumes indianos tão rígidos ainda não foram totalmente quebrados.
E, em comum com a novela, também há um caso de gravidez fora do casamento, envolvendo Maya (coincidência?), neta de Bihma. Uma trama menos romantizada que envolve muito mais as personagens do que a velha história da mocinha que engravidou e não quer quebrar os costumes porque a sua deusa correspondente não gosta. Aí é que está um progresso cultural. Casamento ainda é importante, mas não é tudo. As mulheres trabalham, como a própria novela mostrou, e estudam. Porém, em A Distância Entre Nós isso é muito mais presente, pois essas “novas” atividades para mulheres são fortemente incentivadas.
A relação entre homem e mulher também é retratada de forma mais aberta. A trama de Umbrigar tirou dos ombros das personagens femininas aquele fardo de se demonstrar sempre submissa aos homens. Eles ainda são o grande alicerce da família indiana, mas as tomadas de decisões envolvem mais as mulheres.
Contudo, nem tudo é maravilhoso no que se trata dos costumes. O próprio desdobrar da história mostra que o passado ainda pesa sobre a Índia, e a diferença entre castas, que no livro parecem mais representadas mesmo como classe social (poder financeiro), ainda ditam o destino das relações interpessoais. Embora Sera se considere amiga de Bihma, ela foi incapaz de aceitar uma verdade dita por ela para não colocar a paz da família em risco. Por mais que Bihma tenha se mostrado fiel e companheira. Mas isso não é característico apenas da Índia, mas o preconceito em relação a pessoas de classes mais baixas existe em todo lugar.
Como avaliação geral do livro, é uma leitura que vale mais para mostrar outra realidade daquela mostrada pela novela. Me decepcionei um pouco com ele por conta da amizade entre as duas mulheres constantemente alardeada que no final não serve para nada. Confesso que esperava uma “revolução” comportamental que desse mais prova da quebra de antigos paradigmas que aqui abominamos. Mesmo assim, acaba valendo à pena. Muito melhor ter uma referência além de Caminho das Índias. E mais: sem danças e músicas que surgem do nada.
3 comments Outubro 29, 2009
Os Filhos do Imperador, de Claire Messud
Aclamado pela crítica, Os Filhos do Imperador, romance da americana Claire Messud, não fez muito sucesso entre os leitores. Situada na Nova York anterior aos ataques terroristas de 11 de setembro, a trama de Claire conta a história de três amigos formados em jornalismo que se vêem aos 30 anos de idade certos de que foram designados para uma grande tarefa. Porém, não tem ideia de que grande contribuição eles darão ao mundo, nem de como fazer isso.
Amigos desde a faculdade, os três estão insatisfeitos com suas vidas, preocupados por terem chego aos 30 anos sem ter dado nenhuma grande contribuição ao jornalismo mundial. Marina está sem emprego e há anos escrevendo um livro cujo conteúdo não lhe interessa mais. Além de se ver à sombra de seu pai, Murrey Thwaite, jornalista cultuado de Nova York, e ter a sensação de ter que estar à sua altura. Julius, também sem trabalho fixo, se sustenta com suas críticas de cinema e literatura. Até é conhecido no meio, mas sua vida pessoal não é nada invejável, e vive em busca de um namorado fixo. Danielle é a única que tem estabilidade na profissão, trabalha como produtora de documentários, mas está à procura de um tema interessante que agrade ao seu chefe e à ela também. Em meio a novas experiências e oportunidades, os três filosofam sobre o que fazer da vida, e como fazer.
A descrições dos lugares e personagens são jogadas, não há introdução nem explicação prévia sobre o que está acontecendo e de quem é quem. Conforme a história se desenrola, descobrimos o caráter da personagem e suas relações com os demais componentes da trama. O leitor pode se sentir um pouco confuso no início, mas esse é um método mais eficaz na hora de familiarizá-lo com a história, como se ele sempre fizesse parte dela. Um ponto negativo da narração de Messud são as inúmeras interrupções nos diálogos e descrições da obra. Entre as vírgulas de uma sentença estão um ou vários parênteses que cortam a narrativa com as impressões e pensamentos das personagens, muitas vezes desnecessárias.
A sinopse do livro dá uma esperança ao leitor que não é afirmada. Talvez seja por isso que muitos não gostem de Os Filhos do Imperador: compraram pensando que verão uma grande crítica à sociedade com muita ironia e sarcasmo, e se depararam com pessoas adultas com problemas que parecem infantis. Se há alguma piada entre as páginas, elas são internas, entendidas apenas pelas personagens. Para muitos, isso transformou o livro em apenas mais uma obra com capa bonita e sinopse legal, mas com um conteúdo que deixa a desejar.
Sobre a trama, pareceu que o enredo é mais concentrado no jornalista Murrey Thwaite do que na vida dos três amigos em si. Grande parte das complicações da história estão centradas na relação dele com as outras personagens, como se ele fosse a causa de todos os seus problemas. Por isso Julius fica mais afastado da história. Ele não parece fazer parte do círculo apresentado no livro, e suas aparições são cansativas de acompanhar e pouco interessantes por conta dessa ruptura de laços entre as personagens.
O mais interessante no livro é a narração dos atentados do 11 de setembro de 2001, visto pelos olhos das personagens e, consequentemente, por diferentes ângulos. É aqui onde os 3 amigos se vêem mais próximos dos outros nova-iorquinos, pois depois da queda das torres do World Trade Center não são apenas eles que se vêem perdidos. É uma demonstração de como não só a paisagem da cidade mudou, mas os planos e objetivos de todos foram alterados pelo atentado. Entretanto, parece que faltam algumas coisas no seu final. Tudo termina praticamente da mesma forma como começou, com caminhos incertos e falta de direção. E como muitas vezes é dito no livro, as pessoas devem ser pegas de surpresa. E foi isso o que Messud fez: o final chega de surpresa, mas não completo.
Os Filhos do Imperador é um bom livro, mas difícil de entender. Talvez porque apenas pessoas em situações similares à de Danielle, Julius e Marina consigam compreender realmente seus tormentos, que aos olhos dos outros pareçam fúteis e sem sentido. Porque é disso que o livro trata: incerteza e insatisfação. De querer ser notado e se achar acima de certas atividades e por isso ficar parado no mesmo lugar. O enredo é subjetivo, e muitos podem terminar sua leitura com a sensação de que ele não fala sobre absolutamente nada. Mas fala, e talvez seja necessária mais uma leitura para perceber isso.
Add comment Outubro 22, 2009
Leitura da Semana: O Vampiro Antes de Drácula (I)
Dei uma pausa na Leitura da Semana porque estava lendo um livro para a aula, e como não é literatura de ficção (o foco do blog), resolvi não incluí-lo aqui.
Na verdade ainda estou lendo esse livro (Os Elementos do Jornalismo, se alguém se interessar), e não me segurei e comecei simultaneamente O Vampiro Antes de Drácula. O livro é uma antologia de contos sobre vampiros que fizeram parte da cena literária antes da publicação de Drácula, de Bram Stoker. Com contos de Edgar Allan Poe, Alexandre Dumas (pai), Lord Byron e do próprio Stoker, eles mostram como os vampiros foram retratados antes de Drácula.
A reunião dos contos foi feita por Martha Argel (doutora em ecologia) e pelo biólogo Humberto Moura Neto. Aficcionados pelo vampirismo, eles fizeram um amplo estudo para levantar a origem dos seres sugadores de sangue e de como sua imagem de galã sedutor e malévolo foi construída. É deles também a pesquisa e a tradução de alguns contos, que até então eram inéditos no Brasil. Então não só os contos é que fazem os livros, mas os organizadores também apresentam toda a trajetória do vampiro na literatura até a chegada de Drácula, narrando suas origens e sua aceitação pela sociedade do final do século XVIII e século XIX.
Comecei o livro ontem, mas já digo que é uma leitura que vale muito à pena. Nesse boom que os vampiros tiveram nesse último ano, nada melhor do que voltar às origens, onde os vampiros ainda se transformavam em morcegos. Não só para não se perder em meio à tantas novas abordagens dos temas, mas reafirmar o mito, além de mostrar a constante mutação que a figura vampiresca sofre.
Resumindo, é um livro que está me encantando, desde o conteúdo até a capa (que eu simplesmente amei). Mais na resenha que está por vir.
2 comments Outubro 21, 2009
Finais que fazem o livro valer à pena
Tem certas obras que, mesmo com bom enredo, sendo bem escritas e envolventes, não marcam tanto o leitor. São aquelas que classificamos como “mais ou menos”, que não são ruins, mas também não surpreendem. Infelizmente, no mundo há mais livros assim do que os realmente bons, e felizmente são maioria em relação aos ruins também.
É raro encontrar um livro e achá-lo “revolucionário” logo no primeiro capítulo. Geralmente, nas últimas páginas o livro mostra para o que veio. É justamente aqui que uma obra pode passar de livrinho água com açúcar para figurar nas listas das melhores narrativas. Faço então a minha lista de livros com finais que mudaram totalmente a minha opinião sobre eles. Não se preocupem, não haverá spoiler algum aqui.
Hannibal
Já vou dizendo: o final do filme é bem diferente do final do livro. Para quem ficou só na versão cinematográfica, recomendo ler a obra original e ver as mudanças feitas para o filme. Hannibal, de Thomas Harris, é a continuação do clássico O Silêncio dos Inocentes. Anos depois da fuga do Dr. Lecter, uma batida feita pela agente Clarice Starling complica a sua carreira policial e faz o psicopata dar o ar da sua graça novamente. Enquanto tudo indica que Starling será afastada do trabalho, Hannibal entra em contato com ela através de cartas e novos assassinatos. Porém, dessa vez Dr. Lecter não é alvo apenas da polícia, mas também de uma vítima que sobreviveu ao seu ataque.
O final dessa trama foi o responsável pela ausência de Jodie Foster no papel de Starling na adaptação para os cinemas. Segundo a atriz, o final dado para a personagem, principalmente no que diz respeito sobre sua relação com Hannibal, não foi muito ético. Mas é aí que está toda a graça da dela. Infelizmente, os roteiristas pensaram a mesma coisa que Foster e reescreveram as últimas partes, alegando que o final criado por Thomas era impossível de ser filmado. Aqueles que ficaram curiosos saibam que vale a pena conhecer o desfecho original de um dos melhores personagens da literatura.
As Crônicas de Nárnia
Falo aqui da última aventura escrita por C. S. Lewis sobre Nárnia. Quem tem o volume único das Crônicas é fácil: trata-se do último livro, o final definitivo da história. Caracterizado como infantil, as crônicas desse mundo paralelo atraem tanto crianças quanto adultos. A fantasia e as mensagens nas entrelinhas da obra servem como lição para pessoas de todas as idades. Em A Última Batalha, Eustáquio, primo dos Pevensie, e Jill, sua amiga, enfrentam em Nárnia a invasão da Calormânia. Além da ameaça exterior, conflitos entre os habitantes de Nárnia abalam a estrutura do Reino dos animais falantes.
Acho que Lewis não poderia descrever melhor o final da história. O livro já começa com aquela sensação de fim da fantasia. A terra que antes era próspera e calma está caindo nas garras dos seres gananciosos. Toda a pureza encontrada em Nárnia está se dissipando. E o reencontro final de quase todas as personagens é o que fecha definitivamente o “intercâmbio” Inglaterra-Nárnia. Em momento algum da leitura pensei que o final poderia ser assim como ele é. Talvez porque esperamos que tudo dê certo em uma história infantil. Tudo dá certo, mas nem tanto. E foi isso o que surpreendeu, por ser algo totalmente inesperado, mas presente diariamente na nossa realidade. As Crônicas de Nárnia mostram para as pessoas que tudo tem um fim.
Esse texto não é só para indicar esses dois livros, mas também para passar uma mensagem de alerta: não importa como é o livro, ele pode mudar totalmente no final. Passar de “mais ou menos” a maravilhoso, ou até o contrário. Então, por mais cansativa e chata que uma leitura possa parecer, pode valer a pena no final. E livros bons podem ficar melhores ainda. Os fins justificam os meios, e é aí que você percebe se a obra é boa ou não. Isso pode trazer muitas decepções, claro, mas as surpresas serão sempre lembradas.
5 comments Outubro 15, 2009
Londres, O Romance, de Edward Rutherfurd
Muitas vezes, um romance histórico tem como tema algum conflito importante ou personalidades aclamadas pelos seus atos. São narrados acontecimentos que marcaram épocas, aqueles que mudaram os rumos da sociedade ou pelo menos de uma parcela dela. Porém, eu nunca vi um livro cujo tema central era uma cidade e o que aconteceu com ela no decorrer dos anos. Pois é disso que se trata o livro Londres, O Romance, do escritor Edward Rutherfurd, que narra os momentos marcantes da capital londrina por dois mil anos.
O livro pode parecer assustador no início pelo seu tamanho. São 1019 páginas, algo que pode não só desencorajar leitores não muito assíduos como cansar os ombros daqueles que se propõem a carregá-lo. Esse tipo de preocupação não é necessária. Londres tem um ritmo leve e agradável de leitura, e seu tamanho só dá credibilidade à proposta de narrar 2000 anos da cidade. Contudo, a história começa muito antes disso, e Rutherfurd apresenta até como foi a formação da ilha Britânica, para depois falar das origens da cidade.
E como ele faz isso? Rutherfurd foi criativo, ao meu ver, no modo de mostrar Londres. De 54 a.C. à 1997 d.C., somos apresentados à várias famílias tradicionais da cidade e seus arredores. Tudo começa com os então não nomeados Ducket, que receberam esse nome por terem uma peculiaridade física: membranas entre os dedos. Conforme os capítulos passam, outras famílias começam a fazer parte do enredo, e todas tem algum tipo de ligação com a outra. Através delas, presenciamos os momentos mais importantes, da conquista romana aos bombardeios alemães na Segunda Guerra Mundial.
As situações no início mudam rapidamente, e é um pouco difícil se manter na linha de qual personagem descende de qual. Aí está uma maior exigência durante a leitura. O mais interessante do romance é que de um capítulo ao outro, a atmosfera da história muda. Alguns capítulos tem um ar mais pesado, com grandes problemas que exigem grandes respostas. Outros são simples e cômicos, um alívio para o leitor que pode se cansar com tantas questões de honra e sobrevivência. E as personagens são das mais variadas formas: irônicas, covardes, respeitosas, religiosas, despretensiosas, sonhadoras ou realistas. Todavia, uma característica é comum a todas, motivo da ascensão e queda das famílias durante os anos: a determinação. Essa variação de caráter dá ar à narração, tornando impossível se cansar com uma personagem.
Em Londres, Rutherfurd situa os leitores perfeitamente à época retratada em cada capítulo. Ele mostra ao leitor diferentes faces da capital, e no segundo capítulo, onde é narrada os dias de Londres como cidade romana, é tão convincente e novo que eu nunca consegui imaginar antes uma Londres tão diferente daquela que conheço. E o aspecto da cidade muda conforme a época, claro, impulsionada por guerras e principalmente por conflitos religiosos. Nos sentimos dentro de Londres e entendemos as convicções de cada personagem.
Com um romance assim grandioso, tanto de tamanho quanto de conteúdo, entendemos o porquê de a cidade, mesmo não sendo mais o centro financeiro do mundo, ainda é tão importante e tão procurada pelas pessoas de outros países. É interessante notar que, desde o seu início, Londres sempre esteve cheia de estrangeiros atrás de novas oportunidades. Edward Rutherfurd montou no livro pequenas maquetes vivas da cidade ao longo desses anos, e imagino que não só um estrangeiro pode entender a cidade através de Londres, O Romance, mas que um próprio londrino consegue se identificar e se entender melhor nele.
1 comment Outubro 9, 2009
A Chave de Michelangelo, de S. U. Amorim
O Código da Vinci, de Dan Brown, despertou reações diferentes nas pessoas que o leram. A Igreja não gostou, alguns leitores viram a história como uma grande jogada para vender milhões, outros consideraram o melhor livro do mundo, e alguns taxaram apenas como mais uma obra ocupando espaço nas prateleiras. Porém, para Sérgio Ubirajara de Amorim o Código da Vinci foi além: despertou nele a vontade de ser escritor. Depois de um ano e meio de pesquisas e horas em frente ao computador nasceu A Chave de Michelangelo, primeira obra escrita pelo autor.
Segundo o próprio autor, A Chave de Michelangelo vai contra a obra de Brown. A Igreja que antes era atacada agora é a grande heroína na história. Nesse livro, o mundo está prestes a ser dominado pelas forças luciferianas, que à milênios planejam dominar a criação de Deus e colocar Lúcifer no trono de “grande chefe”. Para isso, os Filhos de Set, seita que arquiteta o plano, precisa de alguns objetos para concretizar o que almeja. A trama se dá a partir da procura pelo Livro de Ouro, escrito por Mefistófeles que revela a localidade de um grande tesouro
Para atrapalhar o pessoal satânico, a rica neta de um famoso egiptólogo, um padre anglicano e uma jovem estudante de Teologia unem suas cabeças privilegiadas para tentar encontrar o Livro de Ouro antes dos Filhos de Set. Assim, o grupo viaja dos EUA à Inglaterra, Egito, Itália e até para Antártida para cumprir seu objetivo.Enquanto isso, dois policiais italianos tentam desvendar o sequestro de uma menina russa, desconfiando de que ela seja sacrificada em um ritual satânico.
Infelizmente, o livro me decepcionou. Tive grandes expectativas quanto a ele, mas foi pura empolgação. É uma história mirabolante e cheia de detalhes que não foi bem desenvolvida e apresentada,chegando a confundir mais do que esclarecer. Os grandes avanços econômicos e tecnológicos são vistos como artimanhas de Lúcifer para exercer seu domínio sobre a Terra, e apenas a Igreja é apresentada como pura e salvadora. A narração não flui por conta dos erros de pontuação e de grafia. São muitas vírgulas e travessões fora do lugar que constantemente confundem o leitor, e em alguns trechos até os nomes das personagens são apresentados fora do contexto.
Os enigmas que compõem a trama não são aprofundados. As respostas aos mistérios apresentados no livro são dadas sem muito diálogo e explicação, fazendo parecer que as personagens são perfeitas enciclopédias ambulantes. Não bastasse isso, algumas coisas são explicadas demais. Muitos fatos são repetidos desnecessariamente, apresentados de uma forma que chega e ser irritante. Logo após uma revelação ser feita, as personagens a repetiam como perguntas utilizando as mesmas palavras, e logo após a confirmação era dada da mesma forma. Muitos parágrafos poderiam ser pulados por conta dessas cansativas repetições
O leitor se vê perdido em meio à narração. Nenhuma orientação acerca do tempo transcorrido é dada. Tudo poderia ter acontecido em alguns dias,semanas ou meses. As personagens também não foram bem caracterizadas. Por exemplo, a menina russa sequestrada. O autor poderia ter se aprofundado na sua história, dando um caráter mais misterioso à trama que despertaria a curiosidade do leitor. Mas não, muitas vezes a menina é esquecida, deixada em um segundo plano, sendo que ela é uma peça importante no livro.
A Chave de Michelangelo poderia ter sido uma ótima leitura se ela fosse mais elaborada e revisada. A premissa do livro é criativa, mas faltam algumas técnicas de abordagem que tornariam a obra mais atraente. Entretanto, uma coisa é certa: uma pessoa determinada pode sim escrever um livro sem ter feito nada parecido antes. Mesmo o resultado não sendo muito bom, fica o sentimento de que é possível realizar tal tarefa, e a experiência trará a qualidade. Não espero que essa resenha seja tida como uma crítica negativa ao livro, mas sim construtiva. Posso parecer pretensiosa, mas espero que o próximo livro de Amorim possa ser melhor trabalhado, e que algumas das críticas que fiz sejam usadas para melhorar a sua obra.
Add comment Outubro 2, 2009
Leitura da Semana: O Laço Duplo (I)
Laurel Eastabrook quase foi estuprada e morta no seu segundo ano da faculdade enquanto pedalava em uma trilha no morro Underhill. Anos depois, formada e trabalhando como assistente social em um abrigo para sem-tetos, ela se ve novamente diante do dia em que foi atacada. Um ex-sem-teto, Bobbie Crocker, de 82 anos e esquizofrênico morre e deixa para trás uma caixa cheia de fotografias. Ele sempre disse que fora fotógrafo, mas ninguém acreditava. A qualidade das fotos, incluindo imagens do lugar onde Laurel cresceu, a levaram a pesquisar mais sobre seu ex-cliente. Porém, algo mais misterioso ainda estava ocupando sua cabeça. Entre inúmeras fotos em preto e branco dos anos 50, havia a de uma jovem andando de bicicleta por uma trilha, muito parecida com Laurel.
Depois dessa apresentação, tenho que falar o que estou achando do livro, claro. Diferentemente do livro anterior (Os Filhos do Imperador), a sinopse de O Laço Duplo o não vai além do que ele é. Ou seja, evita desapontamento. A história de Laurel é envolvente e a leitura flui sem problemas. Por enquanto (página 128 de 416), acho que o livro é meio vago na narrativa. As personagens e situações não são bem aprofundadas. Mas acredito que Chris Bohjalian, o autor, esclarece esses pontos que faltam no decorrer da trama. Afinal, a intenção do livro é acompanhar Laurel enquanto ela desvenda esse mistério. E mistérios precisam de pontas soltas para serem atadas.
Add comment Setembro 28, 2009
Meu Nome Não é Johnny, de Guilherme Fiuza
Ao ler um jornal ou ver um noticiário na TV, sempre nos indignamos quando a notícia se trata de um bandido que não recebeu a pena que merecia. A visão que temos deles são de pessoas preguiçosas, que vivem às custas dos outros e só se aproveitam dos nossos ganhos, roubando ou enganando. Provavelmente, foi esse o sentimento de muitas pessoas em 1995, no Rio de Janeiro, acerca da prisão de João Guilherme Estrella. Porém, se essas pessoas lerem Meu nome não é Johnny, do jornalista Guilherme Fiuza, essa opinião mudará drasticamente.
Guilherme entrou em contato com João com uma proposta: contar a sua história para um jornalista e, dessa história, dar vida a um livro. O ex-traficante aceitou na hora. Assim o nome de João Guilherme voltou a cair na mídia, mas dessa vez falaram bem do “barão da cocaína” da Zona Sul Carioca e acertaram o seu nome. Isso porque ele não é mais barão de coisa alguma. Meu nome não é Johnny faz um relato intenso sobre o início da vida de traficante de João, sua recuperação e sua liberdade. Ele é um anti-herói cuja capacidade de agradar atinge a todos, sendo bandidos, policiais ou as pessoas que devoraram o livro ou viram o filme. Pois, na verdade, João nunca foi bandido. Ele só fez algo ilegal.
Digo isso porque fica claro no livro que ele nunca desejou seguir essa carreira. Foi remando conforme a correnteza, e do papel de usuário de cocaína passou a vendedor em um estalo. A narração clara e objetiva de Fiuza mostra isso com clareza, sem romantizar a infância de João contando “o que ele queria ser quando crescer”. Isso não está no livro, mas certamente João nunca se fez essa pergunta. Ele apenas queria saber de viver e aprontar da forma mais divertida que pudesse.
Eu ainda não cheguei a ver o filme inspirado nesse livro, mas um longa nacional, sobre tráfico de drogas e ambientado em uma prisão tem o histórico de conter uma linguagem nada agradável. Confesso que esperava um glossário de palavras obscenas e gírias em Meu nome não é Johnny, mas me surpreendi com a forma de Fiuza ao mostrar esse assunto na literatura passando, ao mesmo tempo, a sensação de veracidade. Há mais falas de Fiuza, o narrador, do que diálogos das personagens. E essa narração é irônica, sarcástica, e transforma um livro que tem tudo para ser depressivo em uma leitura agradável e engraçada. Muitas das situações pelas quais João Guilherme passa, principalmente na prisão e no manicômio, são mais engraçadas do que qualquer episódio de Casseta & Planeta, sendo que hoje isso não é muito difícil de conseguir.
A única linha seguida por Guilherme na hora de apresentar os fatos é transcrever o início, o meio e o final, mas alternando entre os parágrafos flashbacks de João acerca de algum assunto. Algumas personagens do livro aparecem do nada em uma lembrança, duram duas páginas e somem sem dar mais as caras. Às vezes pode ser confusa essa viagem constante ao passado de João, mas foi um artifício inteligente de Fiuza de mostrar mais da personagem sem precisar de páginas e páginas de rodeios acerca de sua vida. Logo, o leitor se acostuma e se situa na narração sem comprometer o geral da leitura.
Meu nome não é Johnny é um livro que bota por terra a crença de algumas pessoas, como eu, de que bandido sempre será bandido. Guilherme teve todas as chances que podia pedir aos céus para voltar a ser um “barão” depois de ser libertado, mas sua determinação, vinda de dentro da cadeia, só o afastou mais das drogas. Ele é a prova viva de que sim, uma pessoa pode se recuperar. Contudo, não é a cadeia e os tratamentos que vão fazer isso. A vontade tem que partir da pessoa, e o livro ressaltou esse lado de João. No fim, é como se ele nunca tivesse sido bandido, e só resta no livro, filme, e nas suas lembranças os tempos de grande traficante de cocaína do Rio. Livro recomendadíssimo para quem está atrás de uma boa narrativa nacional.
1 comment Setembro 24, 2009



