Loucas de Amor, de Gilmar Rodrigues
Em 1998, um dos mais famosos assassinos do país foi preso. Francisco de Assis, o Maníaco do Parque, condenado por estupro e assassinato. Ele seduzia suas vítimas, as atraía para uma clareira no meio de um parque e ali praticava seus crimes. Durante meses ele foi a atração principal dos noticiários, aparecendo em todos os telejornais. Enquanto a opinião pública o execrava pelos crimes que cometeu, um grupo de mulheres lhe enviavam cartas de amor, esperando dele uma demonstração de carinho.
Esse episódio despertou a curiosidade do roteirista da Globo Gilmar Rodrigues. Como mulheres aparentemente normais se interessam por homens perigosos, criminosos que fizeram mal justamente a outras mulheres? O jornalista passou a pesquisar outros casos de assassinos “Don Juan”, e depois de quatro anos de trabalho e mais de 100 entrevistas nasceu o livro Loucas de Amor: mulheres que amam serial killers e criminosos sexuais. O livro, lançado no último dia 17 no Rio de Janeiro, chega à São Paulo essa semana, pela Editora Ideias a Granel.
O principal objetivo do livro é responder porque essas mulheres se envolvem com criminosos, o que eles tem que as atrai. Boa parte do livro é ocupado com relatos de casos investigados por Gilmar, nas suas viagens para Itaí, onde há uma penitenciária apenas para tratar de criminosos sexuais. Também são apresentados vários “casos de amor” que envolveram o Maníaco do Parque e o famoso bandido da Luz Vermelha. Todos contados com muita simplicidade que chama a atenção do leitor. O assunto já é interessante por si só, e não é preciso muito para prender o leitor na narrativa.
Entre os capítulos há páginas em quadrinhos, um making off do trabalho do autor. Os desenhos de Fido Nesti que ilustram o livro mostram as personagens entrevistadas por Gilmar e dão uma ideia do que ele passou para escrever Loucas de Amor. Com uma certa ironia, os quadrinhos aliviam o conteúdo pesado do livro, permeado de crimes hediondos e pessoas em situação emocional deprimente.
A pesquisa de Gilmar o levou a caracterizar essas mulheres como pessoas carentes, de baixa auto-estima e que sofreram alguma espécie de abuso e abandono. Além de aspectos internos, a exposição dos criminosos pela mídia os tornam atraentes, criam nessas mulheres a fantasia de que eles podem ser curados, ou ent ão de que realmente são inocentes. Acreditam que sua carência será saciada, pois de dentro da cadeia seu parceiro não tem como as abandonar. Deixam de lado trabalho, família e amigos para poder visitar seu companheiro na cadeia. Lá dentro são tratadas “como rainhas”, nas palavras das próprias mulheres.
Para algumas a ilusão passa, percebem que dentro de uma cela os criminosos agem de um jeito, fora de outro. Sentem vergonha do que viveram. Outras voltam a repetir o erro e se envolvem com outro presidiário. Umas continuam a amar o bandido mesmo sendo casadas, com filhos e netos. E acontece com todo tipo de mulher: pobre, analfabeta, universitária, rica, pós-graduadas.
O mais repugnante nessas mulheres é a banalização do estupro. Enquanto a sociedade condena o sexo forçado, irremediável até na opinião de outros presidiários, essas mulheres culpam as vítimas pelo crime. “Só estupro tudo bem”, diz uma mulher apaixonada pelo Luz Vermelha. O conceito sobre o que é ou não crime se mostra deturpado.
Por fim, Gilmar fala de suas entrevistas com psiquiatras, que através de análises de cartas dessas mulheres para estupradores e assassinos traçam linhas que podem explicar esse interesse. Ainda de modo simples, passamos a entender os vários fatores que causam tal comportamento. Loucas de Amor é um livro que se propõe a incentivar mais estudos sobre o perfil de serial killers. Há muito interesse em cima desse assunto, mas uma abordagem a partir de mulheres que se relacionam com tais pessoas justamente por serem criminosas é inédito aqui. Mais um motivo para ler Loucas de Amor.
Add comment Dezembro 3, 2009
Areia nos Dentes, de Antônio Xerxenesky
Não me lembro de ter lido algum livro sobre o Velho Oeste antes. Sobre zumbis já li. Mas zumbis no faroeste é inédito. Para quem ficou intrigado com a mistura, pode conferir ela em Areia nos Dentes, do gaúcho Antônio Xerxenesky. Publicado pela Não Editora, o livro narra a história de Juan Ramírez, filho de Miguel, que tem uma rixa com a família Marlowe. Os Ramírez desconfiam que os Marlowes escondem alguma coisa no seu porão. Porém, há mais do que isso. É uma narração dentro de uma narração. A história é contada por outro Juan, descendente do primeiro, um velho morador da Cidade do México que vê no livro uma forma de dar mais ação a história de sua família.
A construção da narrativa de Xerxenesky foi feita de um modo bem diferente, assim como seu enredo. São diversos estilos de escrita que se juntam no livro. Há desde a clássica narração onipresente até um modelo de roteiro, onde apenas as falas das personagens estão presentes. Essa abordagem da ritmo a obra, com as mudanças de escrita indicando a intensidade de cada cena.
Outro ponto interessante em Areia nos Dentes é a forma como Juan (o velho) é retratado, e como ele faz a história. A narração dos tempos do Velho Oeste é interrompida pelo narrador/personagem por todo o livro, dando à obra o mistério que ela precisa, mostrando como a vida dele molda sua ficção. Sem falar que essas interrupções são cômicas e fazem parte também da estética do livro.
Sobre o enredo, ele realmente prende, mas não pela junção de enredos clássicos: faroeste e zumbis. Isso porque os zumbis demoram a aparecer. Xerxenesky fez com que suas personagens cativassem o leitor, e depois de um tempo de leitura a preocupação sobre a ausência dos zumbis desaparece. Porém, quando acontece, fazem jus às histórias de mortos-vivos. Muito sangue, hematomas, mortos em todos os cantos e corpos revivendo como uma verdadeira infestação. A história nesse ponto pode ser um pouco melodramática, mas não há como ser de outra forma.
Mesmo sendo uma mistura estranha, é fácil converter em imagens as palavras de Xerxenesky. Areia nos Dentes retrata bem o desconforto do calor do deserto. Cenas clássicas de faroeste invadidas pelos zumbis cambaleantes de olhar perdido se formam claramente na mente do leitor. Um ótimo livro, rápido de ler e nem um pouco maçante. Algo diferente do que encontramos nas livrarias e que deve ser lido sem preconceitos.
4 comments Novembro 26, 2009
Leitura da Semana: Nunca o Nome do Menino
Coloquei uma só coisa como título, mas na verdade acabei de adicionar um terceiro item na Leitura da Semana. Ainda estou lutando com Os Elementos do Jornalismo, de Bill Kovach e Tom Rosenstiel. Aliás, tenho que terminar esse até as 19h30 de AMANHÃ! Mas vou conseguir…
E hoje comprei a segunda edição da revista Billboard Brasil. Fiquei sabendo da chegada desse monstro editorial (centenária já) pelo meu professor de Planejamento Gráfico, e vi hoje na banca e não pude resistir. Só R$ 8,90 por uma revista desse porte!
Como Os Elementos do Jornalismo é leitura exigida pela faculdade e a Billboard é revista, não literatura, darei detalhes de Nunca o Nome do Menino, de Estevão Azevedo, publicado pela Editora Terceiro Nome. To a semanas lendo ele, mas tive que paralisar diversas vezes por conta de outros assuntos (trabalhos, resenhas de última hora…), justamente num livro meio complicado como esse.
O enredo é o seguinte: uma mulher descobre que toda a sua vida faz parte de um livro, que todos os seus atos não foram frutos de sua livre e espontânea vontade, mas sim de um autor. Indignada, ela tenta se desprender dele, fazê-lo fracassar na narração, tirando todo e qualquer interesse literário que possa haver nela. Enquanto narra seus dias atuais, ela relembra momentos da adolescência em que conviveu com “o menino”, seu primeiro namorado.
Digo por enquanto que é um livro difícil de começar, mas se pega o jeito. As falas são corridas, não há pontos, só virgulas. Os paragrafos são longos e cansativos, mas não o bastante para fazer desistir da leitura. A história é bem interessante, e melhora principalmente quando o menino entra na trama. Aí tudo parece mais alcançável.
Cheguei exatamente na metade do livro, e estou bastante curiosa pelo final, principalmente pra ver a relação que será feita entre seu presente e passado.
1 comment Novembro 25, 2009
Guerra Sem Fim, de Joe Haldeman
Mil novescentos e noventa e sete. Nossa tecnologia é mais avançada do que temos registro. Portais colapsares possibilitam que humanos cruzem milhares de anos-luz em um piscar de olhos, sofrendo dilatações no tempo. Estamos prestes a travar a primeira batalha contra os taurianos. Entre os escolhidos para integrar a primeira tropa está William Mandella. Formado em física, ele preferia não ir ao espaço aprender táticas de combate. Preferia não segurar armas. Preferia não matar. Tinha certeza de que a guerra não tinha sentido.
Esse é o enredo de Guerra Sem Fim, de Joe Haldeman. Professor de Escrita Criativa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Haldeman é veterano do Vietnã, e qualquer semelhança entre ela e Guerra Sem Fim não é mera coincidência. Publicado em 1974, o livro é uma crítica ao conflito e aos métodos que o governo americano usou para enfrentá-lo, que expõe a loucura e crueldade pela qual o autor passou. O clássico da literatura de ficção científica está sendo adaptado para os cinemas por Ridley Scott e foi publicado aqui no no mês passado pela Editora Landscape.
O mundo de 1997 que o autor apresenta não é só evoluído tecnologicamente. Homens e mulheres estão em pé de igualdade, tanto que metade da primeira tropa é composta por soldados do sexo feminino. Com uma narração convincente, Haldeman nos familiariza com a tecnologia utilizando termos técnicos que ilustram todos os movimentos e objetos criados pelo autor. Com ironia e bom humor, Mandella relata sua trajetória pela luta contra os taurianos.
Guerra Sem Fim mostra apresenta o treinamento de um soldado para uma guerra sem sentido, onde nem o inimigo é conhecido. Mandella e seus colegas são “motivados” a matar, e por mais que essa motivação seja totalmente diferente da realidade que eles conhecem, não há outra saída senão reagir a ela do modo que é esperado. Mandella é obrigado a ver seus conhecidos morrerem um por um, enquanto assassina alienígenas que de início nem apresentam resistência.
Além de todo o trauma da primeira batalha, a personagem se vê completamente perdida ao voltar à Terra depois de dois anos de serviço, transformados em mais de 30 pelas viagens feitas através dos colapsares. O custo alto com armamentos e fenômenos climáticos transformou o planeta em um lugar com recursos naturais escassos, onde a comida é fortemente controlada pelo governo. A população terrestre não é mais de 2 bilhões de pessoas, mas exorbitantes 9 bilhões. Os antigos costumes desapareceram e a violência toma conta da sociedade.
E aqui há uma questão que gera controvérsia. O governo retratado incentiva o homossexualismo para desacelerar o crescimento da população, chegando até ao ponto de considerar o heterossexualismo um crime. Para os homofóbicos, isso pode ser mais um pretexto para continuar hostilizando os homossexuais. Para os simpatizantes, é uma forma de mostrar aos heteros como eles se sentem com tanta descriminação. Pois aqui os gays se tornam a grande maioria. Com mudanças tão difíceis de assimilar, a guerra se transforma no lar dos soldados, que invariavelmente voltam para ela.
Haldeman revela em Guerra Sem Fim a estupidez humana, principalmente a de seus governantes. As pessoas não veem saída para os conflitos, e lutar é a única coisa que lhes resta, sem se importar se vão deixar o campo de batalha vivos ou não. A guerra contra os taurianos termina depois de mais de mil anos com um mal entendido desfeito, e Mandella chega vivo ao seu final. Ele pode parecer melodramático, romântico demais. Porém, por mais que tudo dê certo, sabemos que a ferida aberta pela violência da guerra nunca será curada. E é assim com todos os que passam por essa situação, tanto na ficção quanto na realidade. Guerra Sem Fim é um livro que merece ser aplaudido de pé.
1 comment Novembro 19, 2009
O Vampiro Antes de Drácula
Crepúsculo, True Blood, Vampire Diaries. Antes disso, Entrevista com o Vampiro. Bem antes disso, Drácula. Os vampiros são moda, caem no esquecimento e ressurgem mais fortes e diferentes a cada ida e vinda. De Drácula aos romances vampíricos para adolescentes houve imensas mudanças. Evolução (ou não) do mito vampiresco, suas origens podem acabar se perdendo. Por que então não abandonar um pouco as modinhas e voltar para as suas origens?
Martha Argel, doutora em ecologia, e o biólogo Humberto Moura Neto fazem isso na antologia O Vampiro Antes de Drácula, da Editora Aleph. Adoradores dos vampiros, os organizadores se aprofundam na busca da sua origem. E também desfazem um mito: o de que Drácula, de Bram Stoker, foi o primeiro vampiro. A figura do morto-vivo que se alimenta de sangue surgiu bem antes de Drácula, e isso é desvendado por Martha e Humberto, que mostram como o vampiro passou do folclore à literatura, de monstro repugnante a membro influente da nobreza.
Como a própria nomenclatura diz, O Vampiro Antes de Drácula reúne contos publicados no século XIX dos autores Edgar Allan Poe, John Polidori, Lord Byron, Alexandre Dumas (pai), Bram Stoker, Alexei Tolstoi, Anne Crawford, Arthur Quiller-Couch, Phill Robinson e Conde de Stenbock. Assim, nos é apresentado as várias faces que esses grandes escritores deram aos vampiros, construindo o mito da forma como o conhecemos hoje.
Nas palavras dos organizadores da antologia, o que marcou a entrada do vampiro no gosto popular foi o conto O Vampiro, de John Polidori. Na época creditado a Lord Byron, seu ex-chefe, ele obteve sucesso principalmente depois de ser adaptado para o teatro. Mas nem mesmo Byron se viu satisfeito pela troca. Um conto parecido foi escrito pelo então poeta, mas sem a maestria de Polidori. Esse conto, intitulado Fragmento de um Relato, também faz parte da antologia. Contudo, não tem o mesmo papel extraordinário do texto de Polidori, que mudou os rumos do vampirismo.
E não é a toa que O Vampiro caiu nas graças do público. Cheio de mistério, apresenta personagens sedutores, sendo o vampiro Lord Ruthven o grande “galanteador”. E claro, o final trágico, onde o culpado sai ileso, dá um ar até então pouco comum aos olhos dos leitores. A partir daí o vampiro se consolida como personagem influente e arrebatador, e passa a ser explorado por outros autores, sofrendo mudanças.

Entretanto, nem todos os contos possuem a figura do vampiro propriamente dita. O Retrato Oval, de Edgar Allan Poe, O Horla, de Guy de Maupassant e A Floração da Estranha Orquídea, de H. G. Wells são exemplos que não chegam nem perto do homem pálido de caninos afiados e grandes. Esses 3 contos tratam apenas de características presentes no vampirismo, sendo essa o “roubo” da energia de suas vítimas, mas com a mesma importância dos outros contos
O Convidado de Drácula, de Bram Stoker, foge à regra das publicações que antecedem Drácula. O conto foi publicado depois, mas escrito antes. Ao ser divulgado em uma reunião de obras organizadas pela esposa Florence Stoker, logo após a sua morte, O Convidado de Drácula, faria parte do começo do aclamado romance. Porém, as pesquisas de autores consultados por Martha e Humberto sugerem que o conto foi o primeiro passo para que Stoker desse vida ao seu livro. Logo, o conto não poderia ser deixado de fora.
O Vampiro Antes de Drácula não é recomendado apenas para aqueles que são fãs incondicionais de vampiros. Os que tiveram pouca relação com filmes, peças e livros sobre o tema também devem dar uma chance ao livro para conhecer melhor a personagem. Não só como fonte de diversas curiosidades, mas também para ver o quanto o vampiro mudou também pelo decorrer do século XIX. Sem dúvida é clara a importância que esses contos tiveram na literatura. Porque sem eles, a maioria das histórias de vampiro que tanto veneramos hoje poderiam simplesmente não existir.
2 comments Novembro 12, 2009
Leitura da Semana: Guerra Sem Fim
Estou terminando de ler, mas não poderia deixar de falar desse livro aqui antes de a resenha sair. Guerra Sem Fim é um clássico da literatura de ficção científica americana, escrito por Joe Haldeman, professor de Escrita Criativa do MIT. O livro foi publicado pela primeira vez em 1974, e chega ao Brasil só agora, pela Editora Landscape .
Guerra Sem Fim conta a história de William Mandella, um professor de física convocado pelo exército para lutar contra os taurianos, seres de outro planeta que “ameaçam” a terra. As lutas ocorrem no espaço, e o deslocamento das tropas até o campo de batalha é feito através de portais colapsares, que causam uma dilatação temporal. Além de enfrentar a guerra traumatizante, Mandella luta para se adaptar ao novo mundo que encontra ao retornar à Terra, com seus 2 anos de serviço transformados em 30 pela dilatação dos colapsares.
O livro é cheio de termos técnicos, cuja maioria só pode ter sido criada mesmo por Haldeman. Isso torna o livro muito real, como se todas aquelas naves a armas a laser realmente existissem. A construção da história é feita de forma simples e convincente. Só por isso o livro já é bom, mas o verdadeiro destaque dele é Mandella. É através dele que vemos todo o horror que um soldado tem que passar contra a sua vontade, e do que a humanidade é capaz de fazer para se protejer, mesmo que não haja real ameaça.
O livro todo, na verdade, é uma crítica à Guerra do Vietnã, onde Haldeman serviu. Mandella é o alter-ego do autor, uma forma de mostrar o quanto muitos dos conflitos terrestres são irracionais. Há muita coisa a se dizer sobre o livro, mas isso fica para mais tarde. Mas já adianto que é uma das melhores obras que li até agora.
Add comment Novembro 9, 2009
O Laço Duplo, de Chris Bohjalian
Chris Bohjalian se apaixonou pelo clássico O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, e dele escreveu O Laço Duplo. Um livro onde tudo parece ser real, mas há muito mais coisas por trás daquilo que é narrado. Laurel Eastbrook tinha 19 anos, estava no segundo ano da faculdade em Burlington e adorava andar de bicicleta no morro Underhill. Em um de seus passeios, foi atacada por dois homens que tentaram estuprá-la e matá-la. Anos depois, já formada e com seus agressores na cadeia, Laurel, assistente social em um abrigo para sem-tetos, volta a se deparar com a fatídica tarde de domingo em Underhill.
Um ex-cliente seu, um idoso esquizofrênico sem-teto chamado Bobbie Crocker, morreu e deixou para trás um punhado de fotos e negativos que dizia serem seus. Laurel então é incumbida de organizar o material para fazer uma exposição para angariar fundos para o abrigo. Mas entre as imagens de famosos dos anos 50 e 60, ela encontra registros do antigo clube onde passava seus dias de infância e de uma moça andando de bicicleta no meio de uma floresta. Uma moça muito parecida com ela. A organização das fotos passa então a virar uma obsessão para desvendar o mistério por trás de Bobbie, sua família e dela mesma.
Bohjalian insere o leitor dentro da mente de Laurel de forma simples. Acreditamos seriamente no que ela pensa e vê, mas o livro engana o leitor. Através dele sentimos como uma pessoa pode se fechar para esquecer de fatos dolorosos. Através dos relacionamentos dela com seus amigos e colegas, percebemos que pelo menos parte do que é relatado ao leitor sobre Laurel é prova de sua insanidade. E aí está a grande virada da história: nada do que é relatado na narração é verdade. Quer dizer, o livro é uma ficção, claro, mas uma mentira. Uma invenção da cabeça de Laurel. E Bohjalian coloca isso de forma tão natural que nem se percebe em que momento há essa troca entre Laurel sã e Laurel louca.
E é aí que entra O Grande Gatsby, livro base de O Laço Duplo. Tudo o que Laurel vê e pensa ser verdade é o enredo do livro de Fitzgerald. Um jeito realmente muito bom de se homenagear uma obra, fazendo-a parte da sua. Mas não é apenas em O Grande Gatsby que Bohjalian encontrou os elementos da trama. As fotos de Bobbie, representadas em algumas páginas do livro, são reais, mas creditadas à Bob Campbell, um sem-teto de Burlington. Ou seja, parte da história até é real.
O que caracteriza O Laço Duplo com uma leitura maravilhosa foi a técnica de Bohjalian de dar provas que afirmavam que tudo o que Laurel dizia era real, ao mesmo tempo em que percebíamos que ela não estava raciocinando bem sobre o assunto, para no final ser revelado o que realmente estava acontecendo. Isso sem deixar a sensação de que o autor esta fazendo os leitores de bobos. Ele mostra o quanto as pessoas podem mentir para si mesmas, e quais as conseqüências que essas mentiras podem trazer. Sem dúvida, O Laço Duplo é um livro que merece atenção, e que com certeza vai mais surpreender do que decepcionar.
2 comments Novembro 5, 2009
Leitura da Semana: Areia nos Dentes
O livro da vez é Areia nos Dentes, do gaúcho Antônio Xerxenesky, publicado pela Não Editora. Ouvi falar muito sobre ele, e logo bateu aquele interesse de ver se o livro é bom mesmo. Por que? Porque é sobre o Velho Oeste narrado por um mexicano e com zumbis.
Sinopse rápida: Juan está escrevendo um livro sobre os Ramírez, seus antepassados que moraram nos EUA nos gloriosos tempos do Velho Oeste. Eles tinham uma rixa com os Marlowes, e achavam que a família americana estava tramando algo para dizimar os mexicanos. E os zumbis estão no meio.
Estou quase acabando o livro, na verdade, e só agora é que os tais zumbis apareceram. Mas isso não é problema nenhum no livro. A história é tão bem escrita que não me importei por eles demorarem a dar o ar de sua graça. A narração foi muito bem estruturada, feita de diversos estilos, que dá a Areia nos Dentes todo o ritmo que ele precisa para não cansar o leitor. Achei simplesmente genial. Sem falar que dá pra sentir toda a agonia de Juan Ramirez (o protagonista) quanto ao clima do Velho Oeste.
A resenha de Areia nos Dentes vai estar no Ambrosia entre o dia 31/10 e 13/11 (especial de Halloween), e depois aqui no r.izze.nhas.
3 comments Outubro 30, 2009
Contra o Caminho das Índias: o que a literatura revela
Certo, a tal novela das oito acabou, mas ainda é tempo de falar sobre ela. Isso porque a última trama de Glória Perez deixou uma nova marca nos brasileiros, que durante meses acompanharam Maya, Raj e Bahuan na mais nova ponte aérea novelística: Brasil-Índia. Assim, o “inshalá” de O Clone foi substituído pelo “are baba” de Caminho das Índias, e um pouco daquele grande país foi apresentado aos brasileiros que só ouviram falar da Índia na escola (e nem se lembram).

Porém, logo no início da novela, algumas pessoas já familiarizadas com a cultura indiana, além dos próprios, declararam que a novela de Glória Perez estava há pelo menos 50 anos atrasada. Principalmente por conta de alguns costumes e crenças apresentados no folhetim que, segundo eles, já haviam sido superados. E aí fica a dúvida: Caminho das Índias foi mais uma novelinha para entreter ou realmente ensinou alguma coisa nova para o telespectador?
Como ex-noveleira, que cresceu na frente da TV vendo clássicos como Torre de Babel e A Próxima Vítima, digo que não. Porque eu não aprendi nada relevante das novelas, e duvidava de praticamente tudo que nela passava. Então se alguém se interessou pela Índia por conta da Globo, mas ficou só nisso, indico um livro que não só vai mostrar mais do país mas também provar que realmente Glória Perez se baseou em costumes ultrapassados para montar Caminho das Índias.
Um livro que trata da Índia e que fez sucesso antes mesmo da novela ir ao ar. A Distância Entre Nós, da jornalista indiana radicada nos EUA Thrity Umbrigar. O confronto entre pobres e ricos demonstrado na novela global faz parte da história contata por Umbrigar também. Se bem essa relação é mais “liberal”. A Distância Entre Nós é sobre a amizade entre Sera a Bihma, patroa e empregada, respectivamente. Separadas pela classe social, as duas nutrem há anos uma amizade que vai contra o usual modo de se tratar os empregados. Porém, a diferença entre as duas ainda pesa na sua relação, mostrando que os costumes indianos tão rígidos ainda não foram totalmente quebrados.
E, em comum com a novela, também há um caso de gravidez fora do casamento, envolvendo Maya (coincidência?), neta de Bihma. Uma trama menos romantizada que envolve muito mais as personagens do que a velha história da mocinha que engravidou e não quer quebrar os costumes porque a sua deusa correspondente não gosta. Aí é que está um progresso cultural. Casamento ainda é importante, mas não é tudo. As mulheres trabalham, como a própria novela mostrou, e estudam. Porém, em A Distância Entre Nós isso é muito mais presente, pois essas “novas” atividades para mulheres são fortemente incentivadas.
A relação entre homem e mulher também é retratada de forma mais aberta. A trama de Umbrigar tirou dos ombros das personagens femininas aquele fardo de se demonstrar sempre submissa aos homens. Eles ainda são o grande alicerce da família indiana, mas as tomadas de decisões envolvem mais as mulheres.
Contudo, nem tudo é maravilhoso no que se trata dos costumes. O próprio desdobrar da história mostra que o passado ainda pesa sobre a Índia, e a diferença entre castas, que no livro parecem mais representadas mesmo como classe social (poder financeiro), ainda ditam o destino das relações interpessoais. Embora Sera se considere amiga de Bihma, ela foi incapaz de aceitar uma verdade dita por ela para não colocar a paz da família em risco. Por mais que Bihma tenha se mostrado fiel e companheira. Mas isso não é característico apenas da Índia, mas o preconceito em relação a pessoas de classes mais baixas existe em todo lugar.
Como avaliação geral do livro, é uma leitura que vale mais para mostrar outra realidade daquela mostrada pela novela. Me decepcionei um pouco com ele por conta da amizade entre as duas mulheres constantemente alardeada que no final não serve para nada. Confesso que esperava uma “revolução” comportamental que desse mais prova da quebra de antigos paradigmas que aqui abominamos. Mesmo assim, acaba valendo à pena. Muito melhor ter uma referência além de Caminho das Índias. E mais: sem danças e músicas que surgem do nada.
3 comments Outubro 29, 2009
Os Filhos do Imperador, de Claire Messud
Aclamado pela crítica, Os Filhos do Imperador, romance da americana Claire Messud, não fez muito sucesso entre os leitores. Situada na Nova York anterior aos ataques terroristas de 11 de setembro, a trama de Claire conta a história de três amigos formados em jornalismo que se vêem aos 30 anos de idade certos de que foram designados para uma grande tarefa. Porém, não tem ideia de que grande contribuição eles darão ao mundo, nem de como fazer isso.
Amigos desde a faculdade, os três estão insatisfeitos com suas vidas, preocupados por terem chego aos 30 anos sem ter dado nenhuma grande contribuição ao jornalismo mundial. Marina está sem emprego e há anos escrevendo um livro cujo conteúdo não lhe interessa mais. Além de se ver à sombra de seu pai, Murrey Thwaite, jornalista cultuado de Nova York, e ter a sensação de ter que estar à sua altura. Julius, também sem trabalho fixo, se sustenta com suas críticas de cinema e literatura. Até é conhecido no meio, mas sua vida pessoal não é nada invejável, e vive em busca de um namorado fixo. Danielle é a única que tem estabilidade na profissão, trabalha como produtora de documentários, mas está à procura de um tema interessante que agrade ao seu chefe e à ela também. Em meio a novas experiências e oportunidades, os três filosofam sobre o que fazer da vida, e como fazer.
A descrições dos lugares e personagens são jogadas, não há introdução nem explicação prévia sobre o que está acontecendo e de quem é quem. Conforme a história se desenrola, descobrimos o caráter da personagem e suas relações com os demais componentes da trama. O leitor pode se sentir um pouco confuso no início, mas esse é um método mais eficaz na hora de familiarizá-lo com a história, como se ele sempre fizesse parte dela. Um ponto negativo da narração de Messud são as inúmeras interrupções nos diálogos e descrições da obra. Entre as vírgulas de uma sentença estão um ou vários parênteses que cortam a narrativa com as impressões e pensamentos das personagens, muitas vezes desnecessárias.
A sinopse do livro dá uma esperança ao leitor que não é afirmada. Talvez seja por isso que muitos não gostem de Os Filhos do Imperador: compraram pensando que verão uma grande crítica à sociedade com muita ironia e sarcasmo, e se depararam com pessoas adultas com problemas que parecem infantis. Se há alguma piada entre as páginas, elas são internas, entendidas apenas pelas personagens. Para muitos, isso transformou o livro em apenas mais uma obra com capa bonita e sinopse legal, mas com um conteúdo que deixa a desejar.
Sobre a trama, pareceu que o enredo é mais concentrado no jornalista Murrey Thwaite do que na vida dos três amigos em si. Grande parte das complicações da história estão centradas na relação dele com as outras personagens, como se ele fosse a causa de todos os seus problemas. Por isso Julius fica mais afastado da história. Ele não parece fazer parte do círculo apresentado no livro, e suas aparições são cansativas de acompanhar e pouco interessantes por conta dessa ruptura de laços entre as personagens.
O mais interessante no livro é a narração dos atentados do 11 de setembro de 2001, visto pelos olhos das personagens e, consequentemente, por diferentes ângulos. É aqui onde os 3 amigos se vêem mais próximos dos outros nova-iorquinos, pois depois da queda das torres do World Trade Center não são apenas eles que se vêem perdidos. É uma demonstração de como não só a paisagem da cidade mudou, mas os planos e objetivos de todos foram alterados pelo atentado. Entretanto, parece que faltam algumas coisas no seu final. Tudo termina praticamente da mesma forma como começou, com caminhos incertos e falta de direção. E como muitas vezes é dito no livro, as pessoas devem ser pegas de surpresa. E foi isso o que Messud fez: o final chega de surpresa, mas não completo.
Os Filhos do Imperador é um bom livro, mas difícil de entender. Talvez porque apenas pessoas em situações similares à de Danielle, Julius e Marina consigam compreender realmente seus tormentos, que aos olhos dos outros pareçam fúteis e sem sentido. Porque é disso que o livro trata: incerteza e insatisfação. De querer ser notado e se achar acima de certas atividades e por isso ficar parado no mesmo lugar. O enredo é subjetivo, e muitos podem terminar sua leitura com a sensação de que ele não fala sobre absolutamente nada. Mas fala, e talvez seja necessária mais uma leitura para perceber isso.
1 comment Outubro 22, 2009




